Você não está em crise. Sua carreira ficou mais longa.
Um conforto aos amigos +35 que estão questionando fortemente suas escolhas profissionais , estamos juntos.
Fazia alguns anos que eu vinha me fazendo uma pergunta que nunca consegui responder completamente: até quando?
Até quando eu conseguiria sustentar esse ritmo? Até quando eu continuaria perseguindo o próximo passo?
Porque eu gosto de crescer. Sempre gostei. Gosto de aprender, de assumir desafios maiores, de construir coisas novas.
Mas em algum momento comecei a pensar menos na próxima promoção e mais no que viria depois dela.
Queria a promoção. Depois a próxima. Depois liderar uma área maior. Depois um projeto mais estratégico. E quando uma coisa acontecia, a próxima já aparecia no horizonte.
Durante muito tempo isso me pareceu natural.
Até eu começar a me perguntar qual era o limite. Não de competência. De sustentabilidade.
Porque tem uma diferença entre alcançar alguma coisa e conseguir sustentar o estilo de vida necessário para continuar alcançando Chega um momento que você quer ter um pouco mais tempo de ir no médico, de viajar sem pressa, de dedicar mais tempo a um esporte ou a um novo hobbie, mas como encaixar isso na rotina consumida pelas agendas intermináveis.
Achei que essa inquietação fosse só minha.
Mas ela começou a aparecer nas conversas com amigos, colegas, mentorados, pessoas que admiro. Inteligentes. Ambiciosas. Que, olhando de fora, pareciam estar exatamente onde gostariam de estar.
E ainda assim as perguntas eram parecidas.
“Será que eu quero continuar fazendo isso pelos próximos quinze anos?” “Será que esse ritmo faz sentido pra mim?” “Será que eu realmente quero o próximo nível?”
Nenhuma dessas perguntas vinha de falta de ambição. Pelo contrário. A maioria ainda queria crescer. O que estavam questionando era outra coisa. O custo. O ritmo. A forma.
Neste final de semana li um artigo da Harvard Business Review, que misteriosamente (rs) chegou na minha caixa de entrada: As Careers Get Longer, Midcareer Work Needs to Change (À medida que as carreiras se tornam mais longas, o trabalho na fase intermediária da carreira precisa mudar). O artigo embasado em uma pesquisa discutia algo que eu já vinha observando há algum tempo: profissionais experientes, em momentos importantes da carreira, questionando os próximos anos de trabalho.
Li com uma sensação estranha de alívio. Porque vi essa discussão sendo tratada como algo estrutural, não como falha individual.
Passamos muito tempo acreditando que qualquer questionamento sobre carreira é sinal de crise. Que a inquietação é um problema. Que mudar de ideia é falta de clareza. Que desacelerar é falta de ambição. E ai MEU DEUS! Eu não quero ficar estagnada!
Mas talvez não seja.
Talvez estejamos vivendo uma realidade profissional para a qual ninguém nos preparou.
As carreiras ficaram mais longas. A expectativa de vida aumentou. Muita gente vai trabalhar por décadas além do que as gerações anteriores trabalharam. E isso muda tudo.
É difícil imaginar que o que fazia sentido aos 30 vai continuar fazendo sentido aos 50. Que vamos sustentar as mesmas prioridades, o mesmo ritmo, as mesmas definições de sucesso durante quarenta anos.
Ainda assim, continuamos tratando qualquer desejo de mudança como desvio de rota.
Talvez porque fomos educados para enxergar carreira como linha reta. Escolher uma profissão. Crescer. Subir. Chegar ao topo. Fim.
A vida profissional não está funcionando assim. E talvez nem devesse.
Tenho visto cada vez mais pessoas pensando em transições. Algumas querem mudar de área. Outras querem o mesmo trabalho em outro ritmo. Outras descobriram que não querem mais pagar determinados preços para continuar crescendo.
Acho natural. E acho que vai ficar cada vez mais comum.
Porque construir uma carreira de quarenta anos exige algo que uma carreira de quinze nunca exigiu: reinvenção. Em algum momento, todos vamos precisar revisar escolhas. Reavaliar prioridades. Atualizar o que consideramos sucesso.
Não porque fracassamos. Mas porque mudamos.
Existe uma romantização perigosa da alta performance hoje. Como se burnout fosse comprometimento. Como se exaustão fosse ambição. Como se se destruir fosse o preço inevitável ou, em alguns ambientes, o preço para pertencer.
Pouca gente para para perguntar se o objetivo perseguido ainda faz sentido.
Muita gente está sustentando processos impossíveis porque eles parecem desejáveis. A empresa certa. O cargo certo. A rotina impossível que todo mundo admira no LinkedIn. Em alguns casos, o sofrimento deixa de ser consequência de uma construção importante e vira manutenção de imagem. Isso cobra caro.
Não acredito que toda mudança de carreira seja a resposta. Nem que a solução seja largar tudo e começar do zero como estou fazendo hoje, que me questionei muito e me questiono ainda.
Mas acredito que existe maturidade em reconhecer quando uma trajetória precisa de ajustes. Em perceber que você não precisa passar os próximos vinte anos trabalhando exatamente como trabalhou nos últimos dez. Em admitir que algumas escolhas fizeram sentido num momento e talvez não façam mais.
A pergunta que mais me ocupa não é qual será meu próximo cargo.
É como construir uma carreira que eu tenha vontade de sustentar por mais vinte ou trinta anos.
Talvez essa seja uma pergunta que mais pessoas deveriam se permitir fazer.
Não porque estão em crise. Mas porque suas carreiras ficaram mais longas.
Esse texto foi inspirado por um artigo de Lynda Gratton publicado na Harvard Business Review em maio de 2026: As Careers Get Longer, Midcareer Work Needs to Change.