O seu perfil está descrevendo o trabalho de ontem

Tem uma crença que quase todo profissional sênior carrega sem perceber: se eu entregar bem, alguém vai notar. Ela funciona por muitos anos. Até parar de funcionar.

Ontem eu participei do Cubo Conecta e assisti à apresentação de uma pesquisa que colocou número nessa crença. Chama Profissão Inovação, é da Innoscience com apoio do Cubo Itaú. Eles olharam 2.485 profissionais brasileiros que têm inovação no cargo e classificaram mais de 100 mil posts publicados por essas pessoas ao longo de três anos e meio.

Eu fui pra ouvir sobre inovação. Saí com três dados que falam de outra coisa: de como a gente comunica o próprio trabalho. E de por que competência, sozinha, não vira reconhecimento.

1. Fala-se cinco vezes mais de IA do que se usa IA

Dos posts analisados, 16,4% tocam em inteligência artificial de alguma forma. 8,7% têm IA como assunto central. E 2,1% relatam efetivamente usar IA no trabalho.

O detalhe que me pegou não é a distância. É a velocidade. Em três anos e meio, falar de IA saiu de 7,6% pra 24% dos posts. O relato de uso próprio saiu de 1% pra 2,8% e está parado desde o meio do ano passado. O discurso triplicou. A prática engasgou.

Agora olha quem declara saber de IA: coordenadores e supervisores (27,8%) e diretores, VPs e C-level (27,1%) aparecem acima da média. Especialistas (15,8%) e analistas (16,4%), abaixo. Quem aprova fala mais de IA do que quem executa.

Isso tem nome e não é curva de aprendizado. IA virou senha de pertencimento. Uma coisa que a gente cita na reunião pra mostrar que está por dentro.

E eu não tô falando pra você fazer mais um curso, não. O próprio relatório recomenda o contrário: escolhe um caso de uso real no seu trabalho nos próximos 90 dias, não mais uma certificação. Um processo do seu dia, resolvido com IA, com antes e depois medido.

Num mercado onde 2% contam que usam, esse é o diferencial mais barato que existe hoje.

2. 60% contam o que fizeram. 18% contam o que mudou

Nos 40 mil posts sobre inovação, 60,4% valorizam a atividade e 18,1% valorizam o resultado. Quase quatro pra um. A proporção vem melhorando desde 2023, mas devagar.

Traduzindo: lançamos, participamos, realizamos, estivemos presentes. Quase ninguém escreve o que mudou depois que aquilo aconteceu.

Eu fui exatamente essa profissional por muitos anos. Alta performance, me cobrando muito, estudando muito, correndo atrás do prejuízo. E vendendo muito barato o meu esforço. Eu achava que os meus resultados falavam por mim. Não falam. Nunca falaram.

A diferença entre as duas narrativas é menor do que parece e custa caro.

"Participei do projeto de revisão do processo comercial" é atividade.

"Em menos de um ano a gente saiu de 35 dias úteis entre a solicitação de proposta e o fechamento pra 10 dias úteis" é resultado. Mesmo trabalho. Mesma pessoa. Só que na segunda versão eu não dependo de ninguém traduzir o que eu fiz pra sala onde a decisão é tomada.

E é isso que acontece quando você só narra atividade: alguém precisa fazer a tradução por você. E quem traduz, leva.

Se você quiser testar em dois minutos: pega a sua última entrega grande e escreve em uma frase o que mudou por causa dela. Número, prazo, custo ou risco. Se a frase não sair, o problema não está na entrega. Está no fato de que você nunca mediu.

3. A competência menos declarada do Brasil é autoconsciência

Esse foi o dado que eu não esperava.

A pesquisa cruzou o que os profissionais brasileiros declaram com a matriz de competências centrais para 2030 do Fórum Econômico Mundial. As três competências menos declaradas aqui foram motivação e autoconsciência (17,1%), resiliência e flexibilidade (23,3%) e curiosidade e aprendizado contínuo (25,3%).

As três estão no quadrante central do que o mercado deve exigir até 2030.

E a mais declarada de todas, gestão de recursos e operações, com 91,1%, é justamente a de menor crescimento projetado. As skills que mais aparecem nos perfis são gestão de projetos, Excel, Office e planejamento estratégico.

Tem uma frase do relatório que resume: o título se popularizou mais rápido do que a competência amadureceu.

O mercado inteiro escreveu no perfil a habilidade do trabalho que já sabe fazer. E deixou de fora exatamente aquilo que sustenta a cadeira seguinte, que é saber como você funciona sob pressão, o que te trava, o que você aguenta e o que você já não aguenta mais.

Isso não é papo de autoajuda. Autoconsciência é o que te permite dizer não sem culpa, pedir o que é seu sem parecer arrogante e sustentar uma posição numa reunião difícil. É competência de carreira. Só que ninguém escreve isso no perfil porque ninguém foi ensinado que isso conta.

O que eu levei do evento

Tem uma limitação que os próprios autores declaram logo na metodologia, e ela é a parte mais interessante de tudo: a pesquisa mede repertório declarado, nunca competência comprovada.

Ou seja, esse estudo não é sobre o que os profissionais brasileiros sabem fazer. É sobre o que eles conseguem mostrar que sabem fazer. São sessenta e poucas páginas de dado duro sobre posicionamento, feitas por gente que não estava tentando falar de posicionamento.

E o retrato que sai é o mesmo que eu vejo nas mentorias toda semana: gente muito competente, entregando muito, narrando pouco, e esperando ser escolhida.

Se você chegou até aqui, faz esses três exercícios essa semana. Um caso real de IA no seu trabalho. Uma frase de resultado sobre a sua última entrega. E uma olhada honesta no seu perfil pra ver se ele descreve o trabalho que você fez ou o que você quer fazer.

É um pouco o que eu faço nas mentorias hoje: eu não executo por você, mas eu vejo o caminho e ajudo a deixar mais simples.

Pesquisa Profissão Inovação, Innoscience com apoio do Cubo Itaú, setembro de 2026.